A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno foi seguida, na segunda-feira (26/10), por uma alta forte dos juros futuros longos, pela ampliação dos limites de oscilação dos contratos de DI pela B3 e pelo cancelamento de leilões do Tesouro Nacional. A verificação confirma o disparo das taxas há muito tempo e a explicação predominante entre analistas: o mercado havia se posicionado para outro resultado. Os números exatos do pregão, porém, não são uniformes e mudam conforme o vencimento e o local da coleta.
O que se confirma
A disparada dos juros futuros por muito tempo é registrada pela BBC News Brasil, pela CNN Brasil, pelo InfoMoney e por VEJA, que descrevem o mesmo movimento de alta logo após a confirmação do resultado. O fato foi confirmado em quatro fontes independentes.
Também foram emitidas em duas fontes: a decisão da B3 de ampliar os limites de oscilação das taxas dos DIs em todos os vencimentos (CNN Brasil e InfoMoney) e o cancelamento, pelo Tesouro Nacional, do leilão de NTN-B de terça-feira e do leilão de LTN de quinta-feira (CNN Brasil e InfoMoney).
A quebra de expectativa aparece nas quatro fontes. A leitura comum é que parte dos investidores estava posicionada para uma vitória de Flávio Bolsonaro, cenário associado a maior rigor fiscal e à possibilidade de queda da Selic. “O mercado estava acreditando num cenário otimista, que os preços de ativos iam se valorizar com a possível eleição de Flávio Bolsonaro”, afirmou Luciano Sobral, economista-chefe da NEO Investimentos.
Na mesma direção, Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor da ESPM, descreveu o posicionamento anterior: “Tinha muitas posições fixadas no longo prazo, prevendo uma estabilização da economia, com maior rigor fiscal, mesmo que, naquele momento, (Flávio) não tinha um plano ainda delineado – tinha basicamente uma declaração de”.
As quatro fontes também convergem no que vem depois: o mercado espera a definição da equipe econômica do novo governo e sinais de ajuste fiscal. “Como não veio esse cenário e veio no lugar um cenário que o mercado considera ruim, os agentes estão revisando o que tinham de posições para os preços”, disse Sobral.
O que não está confirmado
A magnitude do movimento não é uniforme. Para o DI com vencimento em janeiro de 2031, InfoMoney e VEJA registram alta de 182 pontos-base, para 14.460%. A BBC News Brasil fala em alta de quase 3 pontos percentuais no mesmo — diferença que as próprias reportagens não explicam e que pode decorrer do horário de observação ou de vencimento de arredondamento. Já a CNN Brasil reporta 263 pontos-base para o DI de janeiro de 2035, dado que não aparece em outra fonte consultada.
O comportamento dos juros curtos também tem versões distintas. O InfoMoney informa que o DI para janeiro de 2027 subiu para 13,795%, alta de 33,1 pontos-base, e descrição de elevação de cerca de 40 pontos-base nos vencimentos curtos. VEJA registro de 13,983% para o mesmo papel, com alta de 52 pontos-base. Nenhuma outra fonte consultada confirma qualquer dos dois números.
Outros dados do pregão aparecem em um único veículo. A queda de 13,88% do Ibovespa em 26/10, a maior desde março de 2020, com interrupção das negociações por circuit breaker na abertura, foi publicada apenas pela BBC News Brasil. O mesmo vale para o dólar: a informação de que a moeda encostou em R$ 5,60 pela manhã e fechou a R$ 5,40, após R$ 4,99 na sexta anterior, tem a BBC como única fonte. O InfoMoney é o único a afirmar que as taxas saíram do leilão; a CNN Brasil é a única a dizer que o Tesouro conseguiu o leilão de LFTs de terça-feira; e o placar de 51,79% a 48,21% dos votos válidos foi publicado apenas pela CNN Brasil.
Contexto
Juros futuros, segundo a descrição publicada por VEJA, são taxas negociadas em contratos na B3 que expressam expectativas para os juros ao longo do tempo, com acréscimo de prêmio de risco. Eles não alteraram a Selic diretamente, mas anteciparam apostas sobre inflação, câmbio e política fiscal. A Selic estava em 13,75% ao ano, conforme a BBC News Brasil.
Sobre o efeito econômico, VEJA afirma que a alta tendência é encarecer o crédito para empresas e famílias e dificultar investimentos. A BBC News Brasil cita estimativa de superávit primário de 1,5% a 2% do PIB para estabilizar a dívida. “A Selic passa a depender de como o dólar vai se comportar, e isso vai depender da resposta fiscal do governo, que terá que se posicionar rapidamente para tentar entusiasmar o mercado”, disse Jorge Ferreira dos Santos Filho.
“O dólar, por exemplo, vai permanecer estruturalmente mais alto do que estava na semana passada, vai seguir operando acima dos R$ 5, a menos que alguma coisa muito extraordinária aconteça”, afirmou o professor da ESPM.
O que ainda não se sabe
Não há informação, nas fontes consultadas, sobre quem integrará a equipe econômica do novo governo nem sobre quais medidas fiscais serão impostas. Também não se saberá se o Banco Central manterá o ciclo de queda da Selic ou se interromperá o processo diante do dólar mais alto e dos juros futuros apertados.
“Por enquanto, sabemos muito pouco sobre isso, não sabemos como o governo, em formação ou em transição, vai encarar a gestão da política econômica”, afirmou Sobral, que também prevê continuidade da pressão: “Acredito que tem espaço para, por várias semanas, ter essa pressão de venda de venda em real para mandar dinheiro para fora”.

